O problema é que, muitas vezes, tentamos responder isso olhando apenas para dentro de nós mesmos. Buscamos propósito nas nossas preferências, talentos, desejos. E embora isso tenha valor, é insuficiente. Porque o sentido mais profundo da vida não nasce apenas de quem somos, mas de Quem nos criou.
A Bíblia apresenta uma ideia desconfortável, mas libertadora: nós não somos o centro. Em Provérbios 3:5-6, lemos: "Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas."
Isso exige uma ruptura interior. Porque confiar de verdade implica abrir mão da ilusão de controle, da necessidade de entender tudo, de justificar cada passo. Viver com propósito, à luz da fé em Cristo, não é ter um mapa detalhado da vida, mas caminhar com direção, mesmo quando o cenário ainda é incerto.
Existe uma diferença entre construir uma vida que faz sentido para nós e viver uma vida que faz sentido diante de Deus. A primeira pode ser coerente, organizada, até admirável. A segunda, muitas vezes, é mais profunda do que confortável. Ela confronta motivações, desmonta vaidades, expõe intenções.
Em Eclesiastes 3:11, há uma observação interessante: "Deus fez tudo apropriado ao seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade..."
Esse “anseio pela eternidade” explica por que nada puramente terreno consegue nos satisfazer completamente. Não importa o quanto se conquiste, sempre resta algo incompleto. Não é falha, mas um sinal de que fomos feitos para algo que ultrapassa o imediato.
Alinhar-se com Deus, então, não é apenas “descobrir um chamado”, como se fosse uma tarefa específica ou uma profissão ideal. É, antes de qualquer coisa, ajustar a própria vida à realidade de que a vontade de Deus para nós é maior, mais ampla e mais sábia do que a nossa (Isaías 55:8-9). Entender isso deve se traduzir em decisões concretas como: o modo como tratamos as pessoas, como lidamos com o tempo, com o dinheiro, com o silêncio, com as perdas, etc.
Há também um aspecto importante que precisa ser dito: propósito não elimina o sofrimento. Muitas vezes, é no processo que o sentido se revela e não apesar dele. Em Romanos 8:28, está escrito: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus..."
Isso não significa que tudo é bom, mas significa que nada é inútil quando a vida está orientada por Deus. Até o que parece perda pode se tornar formação.
Talvez viver com propósito seja menos sobre encontrar uma resposta definitiva e mais sobre aprender a fazer boas perguntas:
- Isso que estou construindo tem valor eterno ou apenas imediato?
- Minhas escolhas refletem apenas o que eu quero, ou também o que é justo, verdadeiro e bom?
- Estou vivendo de forma coerente com aquilo que digo acreditar?
No fim, alinhar-se com Deus pode não transformar a vida em algo espetacular aos olhos externos, mas vai torná-la sólida por dentro.
Há uma quietude, uma paz, uma estabilidade que não depende tanto das circunstâncias. E, curiosamente, é nessa simplicidade muitas vezes invisível, que o propósito se manifesta com mais clareza. Como um caminho que não precisa ser exibido, apenas percorrido.
Pastor Leonardo Alcântara.
